Quem não é de Sampa não deve saber o que é o minhocão. Não é o

eu, no minhocão
pirulito do cara do filme pornô, não… Mas é uma monstruosidade. Ou talvez não. Parafraseando Caê, faz parte da “dura poesia concreta”, obra e assinatura de Paulo Maluf, aquele que faz. Ou melhor, fazia, porque não será mais eleito para cargo executivo… Bem, fato é que o amigo ex-prefeito, quando em posse do trono, resolveu fazer um elevado sobre uma das mais belas avenidas de São Paulo, ligando o centro à zona oeste, bem pertinho do meu Palmeiras. Palmeeeiraaaasss!!! Bem, a obra ficou uma aberração, e acabou com a região, com os prédios antigos e chiques.
Por acaso, eu, com meus cinco anos de idade, morei na São João, e minha janela dava de frente para a via expressa. Era um tal de ouvir carro passando na sala… eu, na minha doce meninice, não sabia que aquilo era imbecil.

foto de Theresa Spyra
Hoje, alguns aninhos mais tarde, pude passar em frente à minha janela. Hoje, fechada. A tinta descascada e a pintura pendurada como pedaço de pele queimado de sol. Do último andar, uma das únicas janelas abertas cantava, a todos os pulmões, uma música destas tipo “isto é kaliiiiipppppiiiissssoooo!!! Eu, de bike, agora no domingo, com o minhocão fechado para carros. Junto com minha companheira, Theresa, também de bike. Outros ciclistas, devidamente encapacetados, passavam em grupos e acenavam com a cabeça, como que dizendo: pois é…
Andar de bike no domingo, principalmente pelas ruas mais centrais, para mim é um delírio. Quantos cheiros, alguns horrendos de bosta humana, pelos cantos dos viadutos, mas outros suaves… Alguns de comida super calórica, outros ácidos de alguma fumaça…
São Paulo pode ser redescoberta de bike. Não só aos domingos, não só nos passeios noturnos. Existe muita beleza concreta, discreta e até gritante. Um antigo templo zen budista no Japão fazia seus monges meditarem, observando excrementos. Quem já sentou – na almofada, bem entendido, deve saber do que estou falando. Ao simplesmente observar, zazen em andamento, nada a ver, nada a julgar, simplesmente estando presente, percebe a beleza. A feiúra não existe. Zazen de bike? Pois é! A monja Coen que me perdoe…
