Imagine que, um dia, você está passando por debaixo de um desses transformadores gigantescos da companhia elétrica, desses que emitem um zuuuummmm e parecem estar querendo explodir a qualquer momento, e… você recebe uma tremenda de uma descarga nos miolos.
Daí, você se levanta, recolhe os bobs espalhados no chão, ajeita a carteira de cigarro no bolso, e sai caminhando como nada tivesse acontecido. Mas peraí! Você olha para os seus pensamentos e não se reconhece mais. Algo mudou, e mudou drasticamente. Você percebe que não tem mais medo. Nenhum, a não ser aqueles normais, de quando você está muito próximo da boca de um tigre faminto. Mas isso, como quase nunca ocorre, não conta…
Sem medo, você anda, sem medo você vive, sem medo você trabalha. Imagine só: agora, você tem a coragem de falar com quem quiser, ir atrás de qualquer trabalho, e como não tem um pinguinho de medo, não duvida em falar que você pode fazer qualquer coisa. Sua palavra convence, afinal, todos vêem segurança em você. E como convence, você ganha muito dinheiro.
Sem medo você passa na porta da sua igreja e não quer entrar mais. Não há temor do que vai ocorrer do outro lado da vida. Se morrer agora, não há problema. Se for daqui a cem anos, melhor ainda. E também não sente mais necessidade de fazer caridade, já que não tem medo de reencarnar como um gafanhoto, ou numa vida desgraçada. Que engraçado, não é: você fazia tantas coisas somente porque tinha medo do amanhã. E medo de não ser aceito pelos outros.
Não há mais jeito: um cara sem medo não é aceito por ninguém mesmo. Afinal, todo mundo tem medo, e por isso são passivos, mostram-se externamente sociáveis, e quando estão nas quatro paredes de casa, descem o porrete no cachorro e no papagaio, falam doce para os outros e destilam fel para si mesmo. Você se lembra, não é? Você era assim, e agora, sem medo, não está nem aí. Você faz a sua vida, e se os outros se ofendem, é porque agora você não está mais mascarado para a sociedade. Agora você desce o porrete no cachorro e não tem medo de esconder o seu jeito. Agora você não tem medo de mostrar sua barriga rechonchuda e nem medo de falar errado em frente aos outros. Não há medo em falhar na cama ou em ser reprovado no teste. E o medo de ficar sem dinheiro, então? Acabou, porque você agora não tem medo de cobrar o quanto vale um profissional que não tem medo. E os outros pagam, porque respeitam alguém que não tem medo.
Mas como toda boa fábula, chega-se a uma encruzilhada e o exu aparece. E misinfio, que não tem medo de nada, encara o chifrudo numa boa. Que lhe pergunta:
- Então, cumpadi. Ta tudo muito bom, bom. Ta tudo muito bem, bem. Mas realmente, realmente… você tem que optar.
- Cara, a eleição é só daqui há dois anos.
- Ta tirando uma de mim, o meu? O papo é o seguinte: acabou a história. Vou te devolver esta caixinha, que ela lhe pertence.
- Que caixinha?
- Esta aqui.
E mostra uma caixinha, com o logotipo da rede globo em cima.
- É o seu medo. Sacou?
- Saquei. Fica com ele.
- Veja bem, cumpadi. Eu devolvo ele, e você poderá novamente ser caridoso, pensar em orar bastante, em evoluir, fazer cara de coitado, ser devoto de quem quiser, falar que acredita em deus, sem nem saber o que é isso, acender vela até pra mim, mostrar pra todo mundo que você é gente fina… você até será aceito novamente pelas pessoas. Agora, eles te acham um arrogante, cara!
- Pois é… Sabe, este papo de Deus… agora que eu faço tudo o que antes não tinha coragem, sinto-me tão forte que não preciso pensar em Deus. Nem no diabo.
- Vamo pará de embromar, o cara. Você vai voltar com seu medo, com sua espiritualidade, com seu deus e vai voltar a ser o cara que sempre foi. Um cordeiro de deus, que tira o pecado do mundo. Toma aqui, que o santo é seu.
Fim da fábula.
Lembro-me de uma frase da sabedoria dos indianos que dizia algo assim: a relação entre eu e a flor é a imagem que crio da flor. Quando não há mais imagem, eu e a flor fundimo-nos numa só coisa.
Da mesma forma, entre você e deus existe uma imagem que você cria dele. O que há além disso?
Trabalhe seus medos e atinja suas metas com a constelação sistêmica, uma técnica rápida e eficaz de você acessar sua inteligência emocional e a intuição. Clique aqui e saiba mais
Alguns interessantes excertos do bom livro “Os lugares que nos assustam”, da linha budista tibetana, que explica um pouco sobre a profunda transição necessária para transcender o medo e viver uma nova realidade – você pode encontrar clicando aqui, no Blog “para ser zen”.